segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Definitivamente, bossa nova não é samba. E Oscar Bolão explica o porquê

Oscar Bolão fala de seu
mestre, Luciano Perrone
Antes de começar a contar a experiência de passar um 1diacom com Oscar Luiz Werneck Pellon na pacata Ilha de Paquetá, um bairro do Rio de Janeiro, preciso dizer quem é esse cara. Oscar Bolão, como é conhecido, é um renomado baterista de 60 anos que se dedica há pelo menos 40 anos ao estudo do samba, do choro e na disseminação de uma técnica herdada de seu mestre, Luciano Perrone, que consiste em levar para a bateria os instrumentos de percussão. Simples: não, nada disso. Uma técnica complicada como as outras porque exige muito estudo e dedicação. Luciano Perrone integrou o quinteto do maestro Radamés Gnattali e justamente na sexta-feira 1º de agosto, quando seguia de Brasília para o Rio de Janeiro, soube da morte do guitarrista integrante desse quinteto, Zé Menezes, aos 93 anos. Para quem não o conhece, Zé Menezes é o autor da trilha sonora de “Os Trapalhões” com aquela música onde a guitarra era evidente: na, na, na, na, na, naaaa, na, naaa, nananana, naaaa, naaaa, naaa...

Pois é. O que tem a ver Zé Menezes e Oscar Bolão? Coincidências, digo, porque o Bolão eu conheço há três anos mais ou menos. Em 2011, Bolão deu oficinas de bateria e caixa lá no Festival de Choro & Jazz de Jericoacora, no Ceará, um festival organizado pelo Capucho que tem por objetivo divulgar a música de qualidade. Já fui em vários festivais lá em Jeri e naquele ano o Zé Menezes foi homenageado. Emocionou a todos porque o velhinho detonou na guitarra. E o Bolão? Bom, esse cara acompanhou a banda Pife Muderno, liderado pelo flautista Carlos Malta. Toca com a banda há vinte anos. Fiquei fã do Pife Muderno pelo conjunto da obra e, em especial, pela técnica de tocar do Bolão, afinal de contas nunca tinha visto ao vivo e em cores um solo de triângulo muito doido. A técnica chama-se Abaíra, mais abaixo eu explico.

Fazendo um exercício para
manter a silhueta
Mas o 1diacom com o Bolão, mesmo, vai começar daqui a pouco. Preciso contar como foi a decisão de passar um dia com ele. É que o Bolão, na sua conta no facebook, criou uma baita discussão ao afirmar que a bossa nova não é samba. Essa declaração provocou reações diversas. Teve gente que deixou de segui-lo no feice. Outros, que continuam “amigos”, desceram-lhe o pau. Enfim, deu o maior rebu. Como acompanhei essa discussão, mandei uma mensagem e perguntei se topava passar um dia comigo. Fechou na hora. O problema agora era meu, porque teria que cortar daqui, economizar dali para poder “produzir” esse evento.

Todas as coisas conspiraram a favor como se os astros, os ETs, os bichos-grilos, hippies, exotéricos e o magnetismo de Alto Paraíso de Goiás (GO) convergissem para que eu pudesse comprar uma passagem baratinha de Brasília para o Rio na sexta-feira 1º de agosto. Um dia antes, estava na recepção da pousada que fiquei lá em Alto Paraíso decidindo ficar mais dois ou três dias, principalmente para aproveitar o festival de música em São Jorge e a Aldeia da Terra, evento que reúne mais de duzentas etnias de índios. A programação estava bem legal e com uma galera de São José dos Campos – Kareka, Gabi e Tainara, mais a Jane que é guia local - assisti ao show do percussionista Naná Vasconcelos.

Comprada a passagem e já dentro do avião da Azul, conheci o Zé Carlos, um especialista em segurança. Como não sei andar no Rio de Janeiro, confesso, perguntei se dava para ir a pé do aeroporto Santos Dumont até as barcas, porque para chegar à Ilha de Paquetá esse é o único meio de transporte. O Zé me disse que os taxistas ficariam furiosos comigo porque é pertinho, mas à pé, bem, à pé poderia ser furtado. O caminho é escurão. No final das contas, ganhei uma carona do Zé e, assim, tinha pelo menos uma hora até pegar a barca das 22 horas.

Ponto de chegada das barcas
na Ilha de Paquetá
Com uma temperatura agradável e ali na frente das barcas uma barraca animada, nada melhor do que tomar uma cervejinha e jogar conversa fora. Conversei com um, que já morou em Brasília e que agora vive na Ilha do Governador, com outro, até chegar um morador da Ilha de Paquetá, o figuraça Antonio Tomé. Em menos de dez minutos de conversa já éramos amigos antigos. O Tomé mora na ilha há dois anos e optou pela tranquilidade para criar o moleque de dois anos. Ao dizer que é de São Paulo, perguntei de qual bairro ele era. Para minha surpresa e coincidência, nasceu e cresceu no Imirim, ao lado do Cemitério Chora Menino. Contei que minha mãe está enterrada lá e ele retrucou:

- Porra, minha família inteira está enterrada lá.

Então eu disse que, pela raiz, por ter nascido na Zona Norte paulistana, no Imirim, no Peruchão, também era um maloqueiro que nem eu, logo, corintiano.

- Maloqueiro não. Sou o único da família que não é. Sou palmeirense. No que restou da família, que não tá no Chora Menino, só tem corintiano naquela porra.

O amanhecer realmente é muito bacana.
Do outro lado, o Rio
Chegando à Ilha de Paquetá quem me esperava era o Bolão, que é conhecido de Tomé. O Bolão tinha recebido a chave da pousada Acordes ao Luar do Ademir, o dono. Uma pousada super legal. Recomendo. O Ademir é o cara da ilha. Bolão mora lá há uns três meses e alugou um flétezinho dele mesmo.

No sábado bem cedinho, às 5h30, acordei para ver o nascer do sol que Bolão disse que era lindo. Realmente. Ainda conheci um pescador que fisgou dois bagres enquanto apreciava a beleza matinal e pensando numa das primeiras frases que Bolão disse: - Quem vem morar em Paquetá tem que estar preparado psicologicamente para não fazer nada.

Pontualmente às 7h30, do sábado, Bolão apareceu na pousada e de lá fomos até a padaria...que é do Ademir, para o  nosso franciscano café da manhã. Prá variar, estava faminto. Pão com manteiga e café preto prá mim e pro Bolão dois pãezinhos com manteiga e um pingado. Bolão está super feliz na ilha.

É um outro Rio de Janeiro, quase parado no tempo. O charme da ilha é que lá não têm carros. O veículo é a bicicleta. Táxi, só os triciclos, uns elétricos e outros movidos a arroz e feijão e algumas charretes. O metrô é um trator que puxa uma espécie de vagão com capacidade para umas 30 pessoas. Por conta dessa tranquilidade, e porque a especulação ainda não chegou lá, vários músicos estão se mudando de mala e cuia do Rio para esse paraíso. Vale a pena, mas psiu: o melhor é não fazer tanta propaganda porque senão daqui a pouco o paraíso se transforma num inferno.

Depois dessa introdução, vamos ao que interessa:

Esse senhorzinho
pegou dois bagres
Bolão, bossa nova é samba? Ele dá uma risadinha maliciosa e abre o microfone. “Não é mesmo. Você assistiu aquela saga no facebook e um dia falei, sem querer, que bossa nova não era samba. No dia seguinte pipocou uma série de mensagens, algumas com raiva e tomei um susto. Agora vou ter que explicar”, conta.

Na verdade, diz ele, a bossa nova não é nem um gênero. É uma maneira de tocar samba.

Como eu explico isso Bolão?

“Essa que é a dificuldade. É samba mas não é samba. Se você pegar gravações de sambas antigos e a gravação de bossa nova vai perceber a diferença. O João Gilberto mudou a maneira de tocar o violão. O violão do samba, ainda hoje os músicos de choro tocam, a raspadeira (aquele violão batucado, teco, teco, turum teco, teco...), virou na bossa nova um (tem, Tum, tem, Tum, tem...). Então, é só perceber, é uma coisa mais minimalista, mais seco, menos coisas, justamente para o João poder cantar daquele jeito que ele queria cantar, voz pequena, baixinho. Ele fez um negócio para ele acompanhar, só que todo mundo embarcou naquela canoa”, diz, acrescentando:  “Gosto de ressaltar. Não estou dizendo que é bom ou ruim. Estou dizendo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

Aí foi a minha vez de tentar dar um ar de quem entende de música. “No feice, quando você explicou a questão das quaternárias, a diferença se vê na partitura e na batida do samba?”, mandei.

Na praia Moreninha, que deu
título ao romance brasileiro
Bolão explica que, na partitura, a frase do samba é de quatro tempos e o compasso é de dois por quatro, mas a frase toda leva quatro tempos. “Só que o samba tem uma acentuação, um apoio no segundo tempo. Vou te explicar: um, dois. Tempo um, tempo dois. A teoria diz que o tempo forte é o primeiro (tâm) só que o samba é o contrário, um, dois, que é a batida forte do surdo no segundo tempo que a bossa nova não tem. Radamés Gnattali mesmo dizia que se não fosse as escolas de samba esse negócio já tinha acabado. A bossa nova perdeu isso”.

Ele continua e lembra que os músicos que estudaram jazz a vida inteira, que são filhos da bossa nova, nunca se preocuparam em pesquisar o que aconteceu antes. “Prá eles o mundo começa com a bossa nova. Como sou pesquisador, eu pesquiso a história da música, o que muita gente não faz, você percebe a diferença, basta ouvir uma música e outra”.

Prá quem não sabe, Bolão é professor na Escola Portátil de Música, que funciona num espaço da Unirio na Urca. Leciona há mais de dez anos. Dava aula de bateria e percussão, mas um de seus alunos, um músico que já é requisitado, ficou com a percussão e Bolão só com as aulas de bateria e de caixa. “Muita gente quer aprender a tocar caixa mas tem que ter muita dedicação”. Pergunto se a caixa se aproxima do timbales, mas não. A caixa tem esteira.

Eu aluguei uma bike.
A do Bolão é vintage
A técnica de Bolão, que é trazer para a bateria os instrumentos de percussão, nada mais é do que ver na bateria todos os ingredientes que podem ser usados. “Estou para lançar um livro que mostra isso, como adaptar a batida de um tamborim à bateria, a batida de um repique de mão. Falo para meus alunos de bateria que é legal aprender a tocar percussão, porque se você sabe tocar uma zabumba, você pode ver na bateria uma zabumba. Aí você usa o couro. A música brasileira na minha cabeça é tambor, mas aí os caras ficam tocando no prato, fazem a virada e voltam. Isso é muito chato”.

Hehehehe. Demos risada dessa previsibilidade. Bolão diz que pouca gente segue essa escola de Luciano Perrone. “Os caras passaram a vida inteira desde 1959 para cá estudando métodos de jazz, rock ‘n’ roll e estão tocando que nem eles”.

E o triângulo, qual é o segredo para detonar?, pergunto, dando minha opinião de quem acha que o triângulo é um dos mais difíceis instrumentos para tocar.

“Ele tem segredo. O lance do triângulo é essa mão que segura ele, de abrir e fechar, que dá dois sons diferentes. Você pode fazer o que quiser com ele. O Marcos Suzano fez isso no pandeiro, ele toca funk, choro, música regional. Digamos que o Suzano internacionalizou o pandeiro. Com o triângulo é a mesma coisa”.

Podia ter gravado no
lugar de Caymmi
Com o Pife Muderno, um CD duplo será lançado em breve. Já se vão vinte anos que Bolão toca com a banda. “Esse ano nós tocamos na China. Eles piraram com a gente. Fizemos esse show no Teatro Forbidden City Concert Hall, dentro da cidade proibida, em Pequim. O teatro estava lotado. No começo eles se perguntavam, que negócio é esse e a gente quebrando tudo, forró brabo. Eles foram se aquecendo e no final o Malta tem essa mania, da escola do Hermeto Paschoal, de descer para o meio do público. Nós descemos e aí virou uma loucura. Aí gritavam, hurravam”.

Bolão continua contando que os seguranças do teatro não sabiam o que fazer. “Não sabiam se prendiam a gente ou se o público”, risos.

Mas, e o solo de triângulo, qual é a técnica, o segredo? Generoso que é, Bolão me dá a receita. É que ele e o Pife Muderno foram tocar na Chapada da Diamantina. Foram do Rio para Salvador e de lá oito horas de ônibus até o festival. Ivan Lins acompanhava a trupe. Feito o show, no dia seguinte teve uma espécie de master class. Estava cheio de gente. Um cara lá pelas tantas perguntou a Bolão sobre o solo de triângulo. “Como foi isso, como você fez aquilo”, perguntou.

Triciclo táxi
da Ilha
“Abaíra, disse prá ele”. É que Abaíra é um nome de uma cachaça e no dia do show Bolão tinha tomado algumas doses. “No dia seguinte fui procurar a cachaça que é gostosa e não tinha mais. A cidade inteira bebeu todo o estoque da Abaíra”. Logo, a técnica do solo de triângulo que eu vi e gostei, decidi sem autorização do Bolão dar o nome de Abaíra, uma justa homenagem. A cachaça é fabricada por 33 sócios de uma cooperativa da Agricultura Familiar, na cidade de mesmo nome, na Bahia. Anotem aí, para fazer aquele solo no triângulo, só com Abaíra, muita Abaíra.

Outro causo engraçado se deu uns tempos antes, quando participou da gravação de um disco com Dorival Caymmi. Num intervalo, Bolão chegou e disse: mestre, queria fazer uma imitação do senhor para o senhor e, com um vozeirão abaritonado, começou a cantar Marina, Morena, Marina....Quando já saía, Caymmi, na sua paz, tranquilidade e esparramado numa cadeira chamou: “Espere aí. Vem cá. Você não quer gravar no meu lugar não? Tô com uma preguiiiiiiça”.

Bolão já tocou com Elizeth Cardoso, Emilinha Borba, Elton Medeiros, Guinga, Joel Nascimento, Ney Matogrosso e Paulo Moura, entre outros tantos. Perguntei se ele chegou a conhecer o trabalho de um parente de minha mãe, o maestro e clarinetista Aristides Zaccarias, nascido em Jaboticabal (SP). “Sim, claro, tocou na Rádio Nacional, em orquestras, fez muito frevo, choro, samba”, respondeu. Pois é, Aristides Zaccarias estudou clarinete com ninguém menos do que Pedro Moura, pai do Paulo Moura que Bolão já tocou.

Bolão me mostra a casa
de Anacleto de Medeiros
Com shows feitos em diversos países, tocou com a Pife Muderno para a rainha da Dinamarca, deu oficinas lá, tocou na França, na Alemanha, em inúmeros outros países, mas o que deu um frio na barriga mesmo foi tocar na majestosa casa de concertos Carnegie Hall em Nova Iorque. “Não vou mentir não. Te dá status tocar lá, porque é uma casa que não abre as portas prá qualquer coisa. E abriram as portas prá gente. Nessa noite o Gilberto Gil estava lá, acompanhando o músico francês Nicolas Krassic que é apaixonado por música brasileira. Quer dizer, toquei no carnegão, mas deu frio na barriga”.

 Preciso acrescentar que Bolão já tocou na Orquestra Pró-Música do Rio de Janeiro, na Orquestra de Cordas Brasileira, na Orquestra Sinfônica Brasileira e na Orquestra Sinfônica Nacional. Ele estudou muito para ingressar em alguma dessas grandes. “Hoje estaria aposentado, mas não teria a história que tenho”, diz sem mostrar arrependimento.

Será aqui o Instituto
Casa do Choro 
Nesse 1diacom com o Bolão, andamos de bike pela ilha. Passamos em frente da casa do artista plástico Pedro Bruno, da casa da irmã do Chico, Cristina Buarque, expert em samba e, inclusive, na frente da casa do compositor, regente e instrumentista Anacleto de Medeiros. Se fosse vivo, faria 150 anos em 2016. Filho de escrava liberta, Anacleto fundou em 1886 a Sociedade Musical Paquetaense. “A gente podia fazer uma homenagem a ele nesses 150 anos, relacionando sua história com as olimpíadas”, diz Bolão. Concordei plenamente, inclusive pela necessidade de se resgatar as orquestras que tocavam nos cassinos do Rio antigo.

Outra coisa interessante dita por Bolão foi a de um francês que ele iria receber no domingo. O cara sai da França para aprender bateria com músicos brasileiros e lá na França, em praticamente todas as grandes cidades, existe uma universidade superior de bateria. Quem sabe Bolão não passe uma temporada lá, dando aulas, e volte para a Escola Portátil de Música, ainda mais agora que terá um espaço para cursos avançados.

Veja que sorte eu tive. Retornando da Ilha de Paquetá para o Rio, fomos para o número 38 da rua da Carioca com outros dois professores que também moram na ilha. Nesse número funcionará o Instituto Casa do Choro. E não é que tive a felicidade de ver, conhecer, tocar nas paredes, o prédio do século passado que irá abrigar o instituto que receberá alunos do curso avançado da EPM. De quebra, conheci Luciana Rabello, cavaquinista e uma das fundadoras da escola. Meu sonho era ter ido à Urca ver de perto a EPM, mas fiquei muito mais feliz por conhecer as dependências do instituto que fará a diferença no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo em relação ao estudo do choro e do samba antes de qualquer outro mortal estudante. Agora espero o convite para a inauguração e, quem sabe, levo meu triângulo, para praticar a técnica Abaíra.
Músicos vão conhecer as instalações
do Instituto. Eu fui...

Antes de terminar 1diacom com Bolão, ele me contou que está se
dedicando ao estudo do budismo. Pratica siddha yoga. Isso ajuda a buscar o equilíbrio e enxergar a vida como ela é de maneira diferente, me diz. Assim, novas portas se abrem para fazer o que ele melhor sabe, tocar e dar aulas, fazer com que as pessoas que ouvem suas músicas com o Pife Muderno ou acompanhando outros músicos saiam felizes e o com o astral lá em cima depois de cada show. Bolão, você é o cara, mestre.  Valeu.

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