| Oscar Bolão fala de seu mestre, Luciano Perrone |
Pois é. O que tem a ver Zé Menezes e Oscar Bolão?
Coincidências, digo, porque o Bolão eu conheço há três anos mais ou menos. Em
2011, Bolão deu oficinas de bateria e caixa lá no Festival de Choro & Jazz
de Jericoacora, no Ceará, um festival organizado pelo Capucho que tem por
objetivo divulgar a música de qualidade. Já fui em vários festivais lá em Jeri
e naquele ano o Zé Menezes foi homenageado. Emocionou a todos porque o velhinho
detonou na guitarra. E o Bolão? Bom, esse cara acompanhou a banda Pife Muderno,
liderado pelo flautista Carlos Malta. Toca com a banda há vinte anos. Fiquei fã
do Pife Muderno pelo conjunto da obra e, em especial, pela técnica de tocar do
Bolão, afinal de contas nunca tinha visto ao vivo e em cores um solo de
triângulo muito doido. A técnica chama-se Abaíra, mais abaixo eu explico.
| Fazendo um exercício para manter a silhueta |
Mas o 1diacom com o Bolão, mesmo, vai começar daqui a pouco.
Preciso contar como foi a decisão de passar um dia com ele. É que o Bolão, na
sua conta no facebook, criou uma baita discussão ao afirmar que a bossa nova
não é samba. Essa declaração provocou reações diversas. Teve gente que deixou
de segui-lo no feice. Outros, que continuam “amigos”, desceram-lhe o pau.
Enfim, deu o maior rebu. Como acompanhei essa discussão, mandei uma mensagem e
perguntei se topava passar um dia comigo. Fechou na hora. O problema agora era
meu, porque teria que cortar daqui, economizar dali para poder “produzir” esse
evento.
Todas as coisas conspiraram a favor como se os astros, os
ETs, os bichos-grilos, hippies, exotéricos e o magnetismo de Alto Paraíso de
Goiás (GO) convergissem para que eu pudesse comprar uma passagem baratinha de
Brasília para o Rio na sexta-feira 1º de agosto. Um dia antes, estava na
recepção da pousada que fiquei lá em Alto Paraíso decidindo ficar mais dois ou
três dias, principalmente para aproveitar o festival de música em São Jorge e a
Aldeia da Terra, evento que reúne mais de duzentas etnias de índios. A
programação estava bem legal e com uma galera de São José dos Campos – Kareka,
Gabi e Tainara, mais a Jane que é guia local - assisti ao show do
percussionista Naná Vasconcelos.
Comprada a passagem e já dentro do avião da Azul, conheci o
Zé Carlos, um especialista em segurança. Como não sei andar no Rio de Janeiro,
confesso, perguntei se dava para ir a pé do aeroporto Santos Dumont até as
barcas, porque para chegar à Ilha de Paquetá esse é o único meio de transporte.
O Zé me disse que os taxistas ficariam furiosos comigo porque é pertinho, mas à
pé, bem, à pé poderia ser furtado. O caminho é escurão. No final das contas,
ganhei uma carona do Zé e, assim, tinha pelo menos uma hora até pegar a barca
das 22 horas.
| Ponto de chegada das barcas na Ilha de Paquetá |
Com uma temperatura agradável e ali na frente das barcas uma
barraca animada, nada melhor do que tomar uma cervejinha e jogar conversa fora.
Conversei com um, que já morou em Brasília e que agora vive na Ilha do
Governador, com outro, até chegar um morador da Ilha de Paquetá, o figuraça Antonio
Tomé. Em menos de dez minutos de conversa já éramos amigos antigos. O Tomé mora
na ilha há dois anos e optou pela tranquilidade para criar o moleque de dois
anos. Ao dizer que é de São Paulo, perguntei de qual bairro ele era. Para minha
surpresa e coincidência, nasceu e cresceu no Imirim, ao lado do Cemitério Chora
Menino. Contei que minha mãe está enterrada lá e ele retrucou:
- Porra, minha família inteira está enterrada lá.
Então eu disse que, pela raiz, por ter nascido na Zona Norte
paulistana, no Imirim, no Peruchão, também era um maloqueiro que nem eu, logo,
corintiano.
- Maloqueiro não. Sou o único da família que não é. Sou palmeirense.
No que restou da família, que não tá no Chora Menino, só tem corintiano naquela
porra.
| O amanhecer realmente é muito bacana. Do outro lado, o Rio |
Chegando à Ilha de Paquetá quem me esperava era o Bolão, que
é conhecido de Tomé. O Bolão tinha recebido a chave da pousada Acordes ao Luar
do Ademir, o dono. Uma pousada super legal. Recomendo. O Ademir é o cara da
ilha. Bolão mora lá há uns três meses e alugou um flétezinho dele mesmo.
No sábado bem cedinho, às 5h30, acordei para ver o nascer do
sol que Bolão disse que era lindo. Realmente. Ainda conheci um pescador que
fisgou dois bagres enquanto apreciava a beleza matinal e pensando numa das
primeiras frases que Bolão disse: - Quem vem morar em Paquetá tem que estar
preparado psicologicamente para não fazer nada.
Pontualmente às 7h30, do sábado, Bolão apareceu na pousada e
de lá fomos até a padaria...que é do Ademir, para o nosso franciscano café da manhã. Prá variar,
estava faminto. Pão com manteiga e café preto prá mim e pro Bolão dois
pãezinhos com manteiga e um pingado. Bolão está super feliz na ilha.
É um outro Rio de Janeiro, quase parado no tempo. O charme da
ilha é que lá não têm carros. O veículo é a bicicleta. Táxi, só os triciclos,
uns elétricos e outros movidos a arroz e feijão e algumas charretes. O metrô é
um trator que puxa uma espécie de vagão com capacidade para umas 30 pessoas. Por
conta dessa tranquilidade, e porque a especulação ainda não chegou lá, vários
músicos estão se mudando de mala e cuia do Rio para esse paraíso. Vale a pena,
mas psiu: o melhor é não fazer tanta propaganda porque senão daqui a pouco o
paraíso se transforma num inferno.
Depois dessa introdução, vamos ao que interessa:
| Esse senhorzinho pegou dois bagres |
Bolão, bossa nova é samba? Ele dá uma risadinha maliciosa e
abre o microfone. “Não é mesmo. Você assistiu aquela saga no facebook e um dia
falei, sem querer, que bossa nova não era samba. No dia seguinte pipocou uma
série de mensagens, algumas com raiva e tomei um susto. Agora vou ter que
explicar”, conta.
Na verdade, diz ele, a bossa nova não é nem um gênero. É uma
maneira de tocar samba.
Como eu explico isso Bolão?
“Essa que é a dificuldade. É samba mas não é samba. Se você
pegar gravações de sambas antigos e a gravação de bossa nova vai perceber a
diferença. O João Gilberto mudou a maneira de tocar o violão. O violão do samba,
ainda hoje os músicos de choro tocam, a raspadeira (aquele violão batucado,
teco, teco, turum teco, teco...), virou na bossa nova um (tem, Tum, tem, Tum,
tem...). Então, é só perceber, é uma coisa mais minimalista, mais seco, menos
coisas, justamente para o João poder cantar daquele jeito que ele queria
cantar, voz pequena, baixinho. Ele fez um negócio para ele acompanhar, só que
todo mundo embarcou naquela canoa”, diz, acrescentando: “Gosto de ressaltar. Não estou dizendo que é
bom ou ruim. Estou dizendo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra
coisa”.
Aí foi a minha vez de tentar dar um ar de quem entende de
música. “No feice, quando você explicou a questão das quaternárias, a diferença
se vê na partitura e na batida do samba?”, mandei.
| Na praia Moreninha, que deu título ao romance brasileiro |
Bolão explica que, na partitura, a frase do samba é de
quatro tempos e o compasso é de dois por quatro, mas a frase toda leva quatro
tempos. “Só que o samba tem uma acentuação, um apoio no segundo tempo. Vou te
explicar: um, dois. Tempo um, tempo dois. A teoria diz que o tempo forte é o
primeiro (tâm) só que o samba é o contrário, um, dois, que é a batida forte do
surdo no segundo tempo que a bossa nova não tem. Radamés Gnattali mesmo dizia
que se não fosse as escolas de samba esse negócio já tinha acabado. A bossa nova
perdeu isso”.
Ele continua e lembra que os músicos que estudaram jazz a
vida inteira, que são filhos da bossa nova, nunca se preocuparam em pesquisar o
que aconteceu antes. “Prá eles o mundo começa com a bossa nova. Como sou
pesquisador, eu pesquiso a história da música, o que muita gente não faz, você
percebe a diferença, basta ouvir uma música e outra”.
Prá quem não sabe, Bolão é professor na Escola Portátil de
Música, que funciona num espaço da Unirio na Urca. Leciona há mais de dez anos.
Dava aula de bateria e percussão, mas um de seus alunos, um músico que já é
requisitado, ficou com a percussão e Bolão só com as aulas de bateria e de
caixa. “Muita gente quer aprender a tocar caixa mas tem que ter muita
dedicação”. Pergunto se a caixa se aproxima do timbales, mas não. A caixa tem
esteira.
| Eu aluguei uma bike. A do Bolão é vintage |
A técnica de Bolão, que é trazer para a bateria os
instrumentos de percussão, nada mais é do que ver na bateria todos os
ingredientes que podem ser usados. “Estou para lançar um livro que mostra isso,
como adaptar a batida de um tamborim à bateria, a batida de um repique de mão.
Falo para meus alunos de bateria que é legal aprender a tocar percussão, porque
se você sabe tocar uma zabumba, você pode ver na bateria uma zabumba. Aí você
usa o couro. A música brasileira na minha cabeça é tambor, mas aí os caras
ficam tocando no prato, fazem a virada e voltam. Isso é muito chato”.
Hehehehe. Demos risada dessa previsibilidade. Bolão diz que
pouca gente segue essa escola de Luciano Perrone. “Os caras passaram a vida
inteira desde 1959 para cá estudando métodos de jazz, rock ‘n’ roll e estão
tocando que nem eles”.
E o triângulo, qual é o segredo para detonar?, pergunto, dando
minha opinião de quem acha que o triângulo é um dos mais difíceis instrumentos
para tocar.
“Ele tem segredo. O lance do triângulo é essa mão que segura
ele, de abrir e fechar, que dá dois sons diferentes. Você pode fazer o que
quiser com ele. O Marcos Suzano fez isso no pandeiro, ele toca funk, choro,
música regional. Digamos que o Suzano internacionalizou o pandeiro. Com o
triângulo é a mesma coisa”.
| Podia ter gravado no lugar de Caymmi |
Com o Pife Muderno, um CD duplo será lançado em breve. Já se
vão vinte anos que Bolão toca com a banda. “Esse ano nós tocamos na China. Eles
piraram com a gente. Fizemos esse show no Teatro Forbidden City Concert Hall,
dentro da cidade proibida, em Pequim. O teatro estava lotado. No começo eles se
perguntavam, que negócio é esse e a gente quebrando tudo, forró brabo. Eles
foram se aquecendo e no final o Malta tem essa mania, da escola do Hermeto
Paschoal, de descer para o meio do público. Nós descemos e aí virou uma
loucura. Aí gritavam, hurravam”.
Bolão continua contando que os seguranças do teatro não
sabiam o que fazer. “Não sabiam se prendiam a gente ou se o público”, risos.
Mas, e o solo de triângulo, qual é a técnica, o segredo?
Generoso que é, Bolão me dá a receita. É que ele e o Pife Muderno foram tocar
na Chapada da Diamantina. Foram do Rio para Salvador e de lá oito horas de ônibus
até o festival. Ivan Lins acompanhava a trupe. Feito o show, no dia seguinte
teve uma espécie de master class. Estava cheio de gente. Um cara lá pelas
tantas perguntou a Bolão sobre o solo de triângulo. “Como foi isso, como você
fez aquilo”, perguntou.
| Triciclo táxi da Ilha |
“Abaíra, disse prá ele”. É que Abaíra é um nome de uma cachaça
e no dia do show Bolão tinha tomado algumas doses. “No dia seguinte fui
procurar a cachaça que é gostosa e não tinha mais. A cidade inteira bebeu todo o
estoque da Abaíra”. Logo, a técnica do solo de triângulo que eu vi e gostei,
decidi sem autorização do Bolão dar o nome de Abaíra, uma justa homenagem. A
cachaça é fabricada por 33 sócios de uma cooperativa da Agricultura Familiar,
na cidade de mesmo nome, na Bahia. Anotem aí, para fazer aquele solo no
triângulo, só com Abaíra, muita Abaíra.
Outro causo engraçado se deu uns tempos antes, quando
participou da gravação de um disco com Dorival Caymmi. Num intervalo, Bolão
chegou e disse: mestre, queria fazer uma imitação do senhor para o senhor e,
com um vozeirão abaritonado, começou a cantar Marina, Morena, Marina....Quando
já saía, Caymmi, na sua paz, tranquilidade e esparramado numa cadeira chamou:
“Espere aí. Vem cá. Você não quer gravar no meu lugar não? Tô com uma
preguiiiiiiça”.
Bolão já tocou com Elizeth Cardoso, Emilinha Borba, Elton
Medeiros, Guinga, Joel Nascimento, Ney Matogrosso e Paulo Moura, entre outros
tantos. Perguntei se ele chegou a conhecer o trabalho de um parente de minha
mãe, o maestro e clarinetista Aristides Zaccarias, nascido em Jaboticabal (SP).
“Sim, claro, tocou na Rádio Nacional, em orquestras, fez muito frevo, choro,
samba”, respondeu. Pois é, Aristides Zaccarias estudou clarinete com ninguém
menos do que Pedro Moura, pai do Paulo Moura que Bolão já tocou.
| Bolão me mostra a casa de Anacleto de Medeiros |
Com shows feitos em diversos países, tocou com a Pife
Muderno para a rainha da Dinamarca, deu oficinas lá, tocou na França, na
Alemanha, em inúmeros outros países, mas o que deu um frio na barriga mesmo foi
tocar na majestosa casa de concertos Carnegie Hall em Nova Iorque. “Não vou
mentir não. Te dá status tocar lá, porque é uma casa que não abre as portas prá
qualquer coisa. E abriram as portas prá gente. Nessa noite o Gilberto Gil
estava lá, acompanhando o músico francês Nicolas Krassic que é apaixonado por
música brasileira. Quer dizer, toquei no carnegão, mas deu frio na barriga”.
Preciso acrescentar
que Bolão já tocou na Orquestra Pró-Música do Rio de Janeiro, na Orquestra de
Cordas Brasileira, na Orquestra Sinfônica Brasileira e na Orquestra Sinfônica
Nacional. Ele estudou muito para ingressar em alguma dessas grandes. “Hoje
estaria aposentado, mas não teria a história que tenho”, diz sem mostrar arrependimento.
| Será aqui o Instituto Casa do Choro |
Nesse 1diacom com o Bolão, andamos de bike pela ilha.
Passamos em frente da casa do artista plástico Pedro Bruno, da casa da irmã do
Chico, Cristina Buarque, expert em samba e, inclusive, na frente da casa do
compositor, regente e instrumentista Anacleto de Medeiros. Se fosse vivo, faria
150 anos em 2016. Filho de escrava liberta, Anacleto fundou em 1886 a Sociedade
Musical Paquetaense. “A gente podia fazer uma homenagem a ele nesses 150 anos,
relacionando sua história com as olimpíadas”, diz Bolão. Concordei plenamente,
inclusive pela necessidade de se resgatar as orquestras que tocavam nos
cassinos do Rio antigo.
Outra coisa interessante dita por Bolão foi a de um francês
que ele iria receber no domingo. O cara sai da França para aprender bateria
com músicos brasileiros e lá na França, em praticamente todas as grandes
cidades, existe uma universidade superior de bateria. Quem sabe Bolão não passe
uma temporada lá, dando aulas, e volte para a Escola Portátil de Música, ainda
mais agora que terá um espaço para cursos avançados.
Veja que sorte eu tive. Retornando da Ilha de Paquetá para o
Rio, fomos para o número 38 da rua da Carioca com outros dois professores que
também moram na ilha. Nesse número funcionará o Instituto Casa do Choro. E não
é que tive a felicidade de ver, conhecer, tocar nas paredes, o prédio do século
passado que irá abrigar o instituto que receberá alunos do curso avançado da
EPM. De quebra, conheci Luciana Rabello, cavaquinista e uma das fundadoras da escola.
Meu sonho era ter ido à Urca ver de perto a EPM, mas fiquei muito mais feliz
por conhecer as dependências do instituto que fará a diferença no Rio de
Janeiro, no Brasil e no mundo em relação ao estudo do choro e do samba antes de
qualquer outro mortal estudante. Agora espero o convite para a inauguração e,
quem sabe, levo meu triângulo, para praticar a técnica Abaíra.
| Músicos vão conhecer as instalações do Instituto. Eu fui... |
Antes de terminar 1diacom com Bolão, ele me contou que está
se
dedicando ao estudo do budismo. Pratica siddha yoga. Isso ajuda a buscar o
equilíbrio e enxergar a vida como ela é de maneira diferente, me diz. Assim,
novas portas se abrem para fazer o que ele melhor sabe, tocar e dar aulas,
fazer com que as pessoas que ouvem suas músicas com o Pife Muderno ou
acompanhando outros músicos saiam felizes e o com o astral lá em cima depois de cada show. Bolão, você
é o cara, mestre. Valeu.